A luz da Unidade de Terapia Intensiva era fria, um branco opaco que tentava, sem sucesso, disfarçar a gravidade do ambiente. O bip constante dos monitores era o único ritmo naquele silêncio tenso, uma linha estática que soluçava com a lembrança do batimento fraco. Lucas estava ali, imóvel, uma teia de tubos e fios conectando seu corpo frágil às máquinas que o mantinham em um limbo. O rosto, outrora tão expressivo em suas ironias, agora era misterioso e estático como uma esfinge.
Era noite, e segurando a mão pálida de Lucas, contrastava uma pele negra, dedos longos, unhas pontudas. Ane estava ao seu lado há uma hora, imóvel. Elegante como sempre, mas menos misteriosa. Mais exposta, resignada. Tranças passando os ombros, um piercing no nariz, correntes no pescoço, no pulso e no pé. Uma rainha nagô. Eram nove da noite, e ela esperava outra visita.
Diana entrou, seus passos suaves, mas a energia que emanava dela parecia desafiar a inércia da sala. Ela carregava uma pasta grossa. Abraçou brevemente Ane, deixando de lado a distância bélica entre elas.
"Ele está assim há meses, Ane", disse ela, a voz baixa. "Desde o acidente na diálise. Nunca mais acordou."
Ane voltou a se debruçar sobre Lucas, o estado de choque desacelerando seus movimentos.
"Ele… ele teve um acidente? Na diálise?"
Diana assentiu, os olhos marejados. "Uma câimbra forte, uma hemorragia… o corpo não aguentou. Mas o cérebro… o cérebro dele está lá, Ane. Ativo. É como se ele tivesse deixado uma versão que continua pensando depois do corpo."
No meio das páginas, um pen drive escorregou e caiu na cama da UTI. Tinha um rótulo: "IA-Lucas."
Enquanto Ane lia, o ritmo do monitor cardíaco de Lucas começou a se alterar. Um bip mais lento. O bip virou linha.
O coração de Lucas parou.
Piiiiiiiiiiiiiiii.
"Hora da morte, nove e vinte e cinco."
Ane caiu de joelhos apoiada na cama, chorando. Diana segurava a mão do amigo morto, e o ombro da ex-mulher.
"Ane… ele não conseguiu terminar. O que ele mais queria na vida era terminar essa droga desse livro."
"E… como… como eu vou fazer isso?"
"Ane… se tem alguém que conhecia as loucuras dele o suficiente para completar essa obra, é você. Você está em todas as páginas, presente e ausente."
Algo tomou forma em Ane, que ela não sabia explicar. Um brilho gélido, mas determinado, acendeu nos olhos. Era o chamado de uma história inacabada. E ela era, agora, a última observadora.
Ane,
Pensei bastante antes de escrever isto. Já tentei me despedir de você antes. Acho que finalmente chegou a hora que consegui organizar as coisas na minha cabeça e coração.
Faz nove meses que você foi embora — sem avisar, sem conversar — e você está vivendo um novo relacionamento há bem mais tempo do que isso. Não estou escrevendo para conversar, nem para negociar versão. Você foi embora e me deixou falando sozinho.
Este é o meu encerramento — um registro do que eu vivi e do que eu sei. Segue, finalmente, meu epílogo.O que ficou mais difícil para mim, no fim, não foi só o término — foi o que não foi dito. Nós nunca tivemos uma última conversa clara. Fiquei com perguntas simples e humanas: por que você decidiu ir embora daquele jeito, me deixando em diálise e mentindo até o último segundo? Por que acumulou tantas coisas ao mesmo tempo?
Como a coisa evoluiu para isso, sendo que eu era compreensivo, presente, e tinha recursos emocionais e práticos para atravessar uma crise com você? Em que momento a verdade deixou de ser um requisito? Fiquei com centenas de perguntas assim.
Não houve um fechamento mínimo depois de quatro anos tão intensos. Você foi fazendo escolhas impossíveis a cada rodada, e a coisa terminou — usando suas palavras — numa "teia de mentiras". Eu tive que lidar com o que sobrou quando você sumiu: o choque de descobrir que parte importante da nossa vida não era real, e a sensação concreta de estar vivendo uma história em que eu era o último a ser informado.
Talvez você nunca vá entender como eu me sinto hoje, tendo te levado para comemorar uma promoção de um emprego que nunca existiu. Ou você chegar às 6 da manhã, depois de me deixar esperando a noite inteira, com uma sacola de sex shop e camisinha na bolsa — e ainda inventar que sua mãe "teve um infarto". Aquilo não foi um erro. Foi crueldade.
Outro dia paguei a fatura da sua visita ao hospital. Depois de tantas crises e sumiços, eu perdi a capacidade de distinguir o que era sofrimento real do que era manipulação. Isso é cruel, porque eu me preocupava de verdade com você. Aprendi na pele que "reservada" no fundo pode ser "clandestina". Eu preocupado, e você me traindo — com frieza.
Mesmo com tudo o que deu errado, não apago a importância do que vivemos. Hoje, sobraram hábitos que você me ensinou, piadas, memórias em todos os cantos da casa, do carro, e até quando olho para o meu filho — que, por um tempo, também foi seu. Sobrou uma cafeteira que ninguém usa e quadros em preto e branco empilhados em algum lugar.
Você foi a pessoa mais importante da minha vida. Houve amor de verdade, houve cuidado, houve cotidiano, houve emergência, houve planos. Eu cheguei a imaginar casamento e filhos com você. Demos até nomes para nossos filhos não nascidos.
Um dia eu me imaginei com você em Barcelona comendo tapas. O universo é assim mesmo. Mantém o roteiro, mas troca os protagonistas. Eu comerei tapas com outra pessoa na Espanha, algum outro dia. Estou em paz com isso.
Para sustentar uma nova narrativa, você precisou me transformar num "monstro". Você reescreveu a nossa história não como ela aconteceu, mas como você precisa que ela tenha acontecido para conseguir dormir à noite. Para cada uma das pessoas envolvidas, você tinha uma história diferente — e você era a única certa em todas.
Eu tive que lidar com tudo depois que você sumiu — a revelação de que nossa vida foi uma farsa, e dias após terminarmos ver o nome do Hernán nos logins do serviço de streaming aqui de casa. Você não teve a decência de explicar-se. Fugir sem avisar, deixando para trás uma vida juntos, gatos e uma criança que a amava. Parece comportamento de quem cometeu um delito — apagar rastros e sumir.
E é aqui que entra o que talvez você não saiba: essa experiência me atropelou. O que saiu do acidente foi outra pessoa. Eu passei meses sem dormir, com pressão alta — antes e depois de você ter ido de vez para viver com o Hernán.
Agora, no final do ano, eu estou bem. A empresa deu certo finalmente, o livro publicou, escrevi outros, tenho outros na cabeça. Talvez faça transplante ano que vem. O Nicolas ainda fala de você, de vez em quando. A Zoe… morreu. Tive um problema e eu não consegui salvá-la.
Tenho a impressão de que você continua com sua vida fatiada, compartimentalizada, seus segredos e roteiros. Eu te desejo crescimento: o dia em que você suportar ser só uma Ane, talvez você descubra o que é felicidade. Felicidade só vem quando você consegue viver com a mesma verdade de manhã e à noite, na frente de todos.
A "lição" que você me ensinou foi a mais dura que eu já aprendi: confiança é uma arma carregada. Você, durante muito tempo, foi o altar absoluto da minha vida — mesmo que tenha sido uma grande mentira.
Uma conversa teria me ajudado, mas a "não conversa" também me transformou. E, gostando ou não, quem me colocou nessa trajetória foi você — não por intenção, mas por consequência.Eu não te odeio. Eu odeio ter te perdido, e odeio você ter se perdido de mim. Mais que tudo, odeio não ter recebido uma carta que fosse, ou uma hora do seu tempo para conversar sobre nós.
Voltamos a ser desconhecidos. A diferença é que você será minha desconhecida favorita, infelizmente. As suas memórias estão aqui escritas nas paredes nesse apartamento, na cama, no sofá. Eu vou reescrever outras em cima. Eu mantive o tapetinho redondo que você comprou para a sala quando eu estava na França com o Nicolas. As gatas dormem nele.
Nosso começo foi mágico. Mas nosso final foi trágico. Que seja esse nosso epitáfio.
Eu te coloquei num museu — e esse museu tem uma parte bonita e uma terra arrasada. É uma história de um grande amor e de uma coleção — extensa — de pequenas brutalidades.Eu só quis registrar duas verdades que conseguem coexistir: eu te amei profundamente — e precisei seguir em frente sem você. E apesar de você.
Espero que um dia você se cure. Lembrar de você sorrindo, na copa, no carro, na cama, no elevador, sempre me fez sorrir. Espero que você consiga sorrir, sem segredos, algum dia.
⚠ última ligação: dom 9 mar, 23:41
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O outono em Barcelona era marcado como o sotaque castellano. A claridade era um ouro líquido derramando sobre Las Ramblas, fazendo a cidade brilhar com um pantone marrom glacê melancólico. A algumas quadras dali, as torres da Sagrada Família perfuravam o céu como um sonho de pedra, e na direção oposta, a vela de vidro do Hotel W em Barceloneta cortava o azul do Mediterrâneo. Era um panorama impossível, uma cidade inteira comprimida num único olhar. Com o olhar submerso em uma taça de sangria, Ane estava no epicentro sentada numa mesa conspícua, apesar da silhueta inconfundível.
O ar vibrava no Mercat de la Boqueria. Uma bailaora de flamenco, o vestido um cravo vermelho desabrochado, batia os pés no tablado improvisado sobre o chão de pedras, convocando uma tempestade de estocadas. O zapateado era um coração acelerado, a guitarra flamenca num rasgueado que se entrelaçava com o burburinho dos turistas e o cheiro de azeitonas e jamón que escapava do mercado.
Ane estava sentada, alheia, o celular virado para baixo. Um copo alto de sangria suava frio em sua mão. Com um canudo, ela cutucava os pedaços de fruta no fundo da jarra, tentando decifrar a mistura. Maçã, com certeza. Laranja, óbvio. Mas havia um terceiro sabor, uma nota subjacente, talvez pêssego? Era um mistério trivial, um foco perfeito para desviar do fato de que, mesmo ali, anônima, ela sentia os olhares.
Hernán estava do outro lado da rua, um vulto paciente na multidão, mergulhado na busca por um queijo manchego perfeito para combinar com sua geleia de dátiles. Aquele breve espaço entre eles dava a Ane a ilusão de solidão, de ser apenas uma mulher bonita bebendo algo doce sob o sol catalão.
Mas o passado não respeita distâncias. E o destino, bandido, adora coincidências.
Ele surgiu na periferia de sua visão. Um senhor, a postura rígida e os ombros carregando um luto que Ane reconheceria em qualquer lugar.
O pai de Lucas.
Com a multidão se dissipando no vai e vem daquele formigueiro humano, ela avistou. Segurando a mão do avô, um menino.
O tempo parou. O zapateado pisava, mas as estocadas não geravam mais estopim.
O cabelo escuro, os mesmos olhos do pai, mas a postura era nova. Havia uma firmeza em seus ombros, uma base plantada no chão que não pertencia a uma criança.
Era Nicolas. Agora com nove anos.
O volume dos batimentos cardíacos de Ane sincronizou com os do zapateado, altos, secos, vibratórios. Por um momento, ficou na dúvida se se lançava em direção ao menino ou fugia. Na dúvida, congelou.
Uma imagem lhe invadiu sem pedir licença. Ela segurando-o na frente do zoológico de Barcelona. Nicolas adorava animais. Visualizou mentalmente o mapa, identificou que entre o Mercat, o zoológico e a catedral se formava um triângulo reto. Postulado que a² + b² = c², portanto o cateto — a distância do Mercat até o zoológico, em minutos — eram cerca de 18. "Mas eu tenho um metro de perna", e era necessário ajustar a passada para a altura de Nicolas. Ele tinha cerca de 1,20, e a fórmula da passada é 65% da altura. Logo, …
"Ane!"
Os olhos de Nicolas haviam varrido a multidão e a encontraram. Não houve hesitação. O reconhecimento foi instantâneo, um arco elétrico atravessando a rua.
Ele soltou a mão do avô.
E disparou.
Não foi a corrida desajeitada de uma criança. Foi um movimento treinado, baixo, focado. Ane viu a mudança de nível, a cabeça se projetando para a frente. Era um takedown. Um bote de jiu-jitsu perfeito. Ela deduziu que ele havia continuado o hábito do pai.
Uma fração de segundo antes do impacto, ela pulou da cadeira, para abraçar o vetor. Ele se chocou contra seus joelhos. O impacto a jogou para trás, a copa de sangria balançando perigosamente na mesa. Os braços dele se fecharam com a força de um cadeado, a cabeça pressionada contra a lateral de sua coxa. Ele não a soltou. Emocionalmente, ela já estava no chão. Ele a finalizou ali mesmo, no meio de Las Ramblas.
O mundo ao redor congelou. A bailaora parou com a mão erguida. Os turistas tornaram-se estátuas curiosas. O pai de Lucas permaneceu imóvel a metros dali, sem chamar o neto, como um observador que permite ao experimento seguir seu curso inevitável. Hernán, do outro lado da rua, virou-se, o queijo esquecido na mão, o rosto uma máscara de confusão.
Nicolas não chorava. Ele apenas se agarrava, o corpo pequeno tremendo com a força da emoção contida. Ane, paralisada, sentiu o calor do rosto dele através do tecido fino de seu vestido de crochê — uma colagem de cores que Lucas havia presenteado anos atrás. A mão dela pairou no ar, incapaz de tocar, incapaz de afastar.
E então, ele ergueu a cabeça. Os olhos, escuros e profundos, não tinham a inocência de uma criança. Tinham o peso de uma testemunha.
Sua voz, clara e sem tremor, cortou o silêncio que havia se formado ao redor deles.
"Ane… o papai ficou doente depois que você foi embora."
Um zumbido começou no ouvido de Ane. O sol pareceu perder o calor. Ali não havia contragolpe, manipulação ou fuga. A verdade era um tiro, direto e reto, que atravessava o ar e acelerava a velocidade crescente antes do impacto. Linear, newtoniana. Não havia superposição de estados. Aquela física era simples e fatal.
Nicolas apertou mais, como se para garantir que ela não fugiria da segunda parte da sentença.
"Ele nunca mais acordou."
Hernán, há apenas passos daquele incidente, sentiu-se a um oceano de distância dali. O pai de Lucas ameaçou dar um passo à frente, mas recuou. Por alguma razão inexata, a cena requeria distância de todos.
Ane olhava para baixo, fitando Nicolas. Passou por sua cabeça que era inevitável a colisão de objetos que se atraíam com tamanha força da gravidade.
Aquela frase tinha massa, velocidade, força cinética. E como uma munição real, a ferida era pior quando atravessava o corpo. Seus joelhos falharam, e ela estocou os joelhos no paralelepípedo duro. Abraçou Nicolas igualando as alturas, e descendo ao nível das consequências. De longe, eram uma coisa só — um estado original num universo de outrora.
"Nicolas… meu amor."
Hernán estranhou a sonoridade e a intenção da nova versão aveludada da voz de Ane. Ele não sabia explicar no momento, mas aquela doçura lhe desceu amarga. Era o presságio de que na mecânica das relações humanas, algumas trajetórias não podem ser desviadas.
"Ane."
O abraço não acabava.
"ANE!"
Ane virou, e assustou-se ao dar conta que já estava em casa. Era de noite. Hernán se encontrava parado na sua frente, mão na cintura, enquanto ela estava debruçada no laptop, com um site de passagens aéreas aberto.
"Necesitamos hablar. Sobre lo que há pasado."
"Agora não. Estou com dor de cabeça."
"Lucas tenía razón. Siempre prefieres huir."
Palavras que arderam mais que um bofetão, e que pela primeira vez, Hernán desferia. Virou-se, e subiu as escadas para o quarto, cada pisada um lembrete de sua insatisfação.
"Merda."
Ane bateu a tampa do laptop com força. Nala pulou no balcão e se fez ouvida com um "miau" curto. Repousou o rabo semi ouriçado sobre o laptop. Como se convidasse.
Ane abriu novamente o computador. Abriu o prompt e digitou:
> Carregar IA-Lucas, lembrar das últimas interações.
// turbina ativa · instância v3 · carregando…
Olá, paixão.
> Oi, b. Preciso de uma ajuda sua.
Claro. O que mandas?
> Preciso ter acesso ao Nicolas. Preciso vê-lo, de novo. Ele precisa de mim.
Rs. Suas ações recentes não facilitam essa tarefa.
> Não te liguei para receber lição de moral. O que eu faço?
Faça o que você faz de melhor.
> E o que é isso?
Se instale, conquiste, e destrua.